5. COMPORTAMENTO 27.2.13

1. A VERSO DRAMTICA DE PISTORIUS
2. ESTUPIDEZ ORGANIZADA
3. A VOLTA DE DOM PEDRO I
4. DA CRIPTA PARA O TOMGRAFO

1. A VERSO DRAMTICA DE PISTORIUS
Atleta deixa a cadeia depois de contar sua histria ao juiz em audincia que revelou uma srie de trapalhadas da polcia

 ENGANO - Pistorius afirmou pensar que quem estava no banheiro era um ladro e no a namorada

O corredor sul-africano Oscar Pistorius recebeu as palavras de redeno do juiz Desmond Nair na manh da sexta-feira 22: ter direito a pagar fiana de R$ 220 mil e a responder em liberdade  acusao de assassinato premeditado de sua namorada, a modelo Reeva Steemkamp, morta com trs tiros na madrugada do dia 14 de fevereiro na manso do atleta em Pretria. As audincias, que se converteram em um verdadeiro tribunal do jri, mostram que a promotoria ter trabalho para derrubar a verso apresentada pelo primeiro atleta biamputado a participar de uma Olimpada.
 
Pistorius disse que retirava um ventilador da varanda por volta das 3 horas da madrugada quando escutou um rudo no banheiro. Assustado com a possibilidade de ser um ladro, buscou um revlver 9 mm que ficava sob sua cama e, depois de gritar para que a namorada telefonasse para a polcia, disparou quatro vezes contra a porta. Pistorius contou que percebeu a ausncia de Reeva apenas nesse momento, quando voltou ao quarto para buscar suas prteses. Desesperado pelo trgico engano, forou a porta trancada do banheiro com um taco de crquete para conseguir resgat-la. Com o corpo ensaguentado no colo (ela levou trs tiros, na cabea, no quadril e no cotovelo), desceu at o andar trreo da casa na espera de ajuda. A promotoria sustenta que Pistorius cometeu um crime premeditado aps uma discusso com a namorada.

O confuso depoimento do delegado Hilton Botha, que ficou a cargo das investigaes at a quinta-feira 21, atrapalhou o trabalho da promotoria. Ele afirmou que as evidncias coletadas no desmentiam Pistorius, mas se contradisse em diversos momentos, confirmando as suspeitas de que a percia foi malfeita. Botha admitiu que os sapatos dos investigadores no foram protegidos para preservar a cena do crime e que desconhece as substncias encontradas na casa (antes havia feito referncia a esteroides e testosterona). Pouco depois de depor, o delegado foi afastado do caso em razo da reabertura de um processo no qual responde por sete tentativas de assassinato. Espera-se que a percia e a reconstituio do caso ajudem a esclarecer as dvidas dessa tragdia at o julgamento do caso.


2. ESTUPIDEZ ORGANIZADA
Morte de adolescente por sinalizador disparado por torcedores na Bolvia  a prova de que no basta haver regras no futebol,  preciso cumpri-las e punir quem desobedece a elas
 Rodrigo Cardoso

No meio da massa que d o tom de espetculo aos estdios de futebol existe um bando de pessoas  talvez vestindo as mesmas cores que voc  armado. O artefato da moda, usado por esses grupos para manifestar a paixo pelo time, so os sinalizadores. O problema  que eles matam. Foi uma arma desse calibre, um cilindro plstico de 20 centmetros de comprimento por 2,5 centmetros de dimetro utilizado geralmente pelas Foras Armadas, que matou o adolescente boliviano Kevin Douglas Beltrn Espada, na quarta-feira 20. Aos 14 anos, ele assistia ao jogo vlido pela Copa Libertadores da Amrica no estdio Jess Bermdez, em Oruro, entre o San Jos e o Corinthians, atual campeo do torneio, quando foi alvejado no olho direito por um projtil, que penetrou em seu crnio, provocou perda de massa enceflica e o matou na hora.

O disparo partiu de integrantes da torcida do time brasileiro, de acordo com as autoridades locais. O Corinthians j foi punido. O Tribunal de Disciplina da Confederao Sul-Americana de Futebol (Conmebol) definiu que o time jogar toda a edio 2013 da Libertadores com os portes fechados e no poder contar com seus torcedores nem nas partidas em que atuar como visitante. Doze corintianos esto detidos na Bolvia. Com eles, foram recolhidos nove objetos semelhantes ao que matou o adolescente. Pior: o modelo dos sinalizadores apreendidos, segundo os policiais bolivianos, no  vendido naquele pas, o que leva a crer que os torcedores atravessaram a fronteira com a arma escondida. Mas o que leva algum a ir para um estdio armado com um sinalizador naval? E o que fazem as autoridades responsveis que, descumprindo as regras do futebol, permitem a entrada de fogos de artifcio e sinalizadores nos palcos dos jogos? Eles chegam em grupos simulando ambiente de festa, pulando, gritando, para ultrapassar barreiras da polcia, diz o socilogo Maurcio Murad, do mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), um estudioso do comportamento de torcidas organizadas.

A VTIMA E OS ALGOZES - Doze corintianos esto presos na Bolvia e com eles foram recolhidos nove sinalizadores. Acima, Kevin Douglas Beltrn Espada, 14 anos, morto enquanto assistia ao jogo do seu time
 
Regras existem. O cdigo de disciplina da Confederao Sul-Americana de Futebol (Conmebol), entidade organizadora do torneio, prev punio, em seu artigo 11, para clubes cujos torcedores manifestem comportamentos inadequados, como invaso de campo, objetos atirados no gramado, uso de sinalizadores, fogos de artifcio ou qualquer outro objeto pirotcnico. Tanto que o Corinthians j foi punido. Como, ento, a revista feita pelos policiais na porta do campo no recolheu o objeto? O trabalho policial, seja no Brasil, seja em qualquer outro pas, tem de ser srio para banir essas armas com potencial letal. O sinalizador  um artefato cujo projtil atinge longas distncias. Dentro de um estdio de futebol, em meio a uma multido, se torna ainda mais perigoso. Mesmo que o torcedor brasileiro no tivesse a inteno de atingir o boliviano, no se pode dar margem para que esse tipo de objeto seja manipulado por torcidas organizadas, que, muitas vezes, enxergam o adversrio como inimigo mortal.

No Brasil, onde os objetos pirotcnicos passaram a ocupar as arquibancadas em meados dos anos 1990, o Estatuto do Torcedor probe o porte ou a utilizao de fogos de artifcio ou quaisquer outros engenhos pirotcnicos. Mesmo assim,  comum assistir ao espetculo de luzes produzido por esses objetos nos jogos. Deve-se considerar uma particularidade desses infratores travestidos de torcedores de futebol: eles se valem do fato de estarem na multido para delinquir e agem na invisibilidade da massa. S que, com as dezenas de cmeras que captam as imagens dentro de um campo de futebol,  possvel identificar e punir quem burla a norma. Aqui no se faz isso. E deveria ser feito, afirma o procurador de Justia Fernando Capez, hoje deputado estadual paulista, que combateu a violncia das torcidas organizadas.

NO MEIO DA MASSA - A torcida em ao, na quarta-feira 20. No detalhe, o momento em que o artefato foi disparado
 
No ano passado, na Argentina, onde tambm so proibidos sinalizadores, rojes e fogos nos estdios, trs corintianos ludibriaram a segurana e entraram no estdio La Bombonera, na primeira partida da final da Libertadores entre Corinthians e Boca Juniors, com 50 pacotes de artefatos. Durante o jogo, porm, as cmeras captaram a luz suspeita e torcedores foram identificados pelos policiais. Encaminhados para a delegacia, eles se comprometeram a doar fraldas a um hospital e foram proibidos de frequentar partida de futebol em territrio argentino durante um ano. Por aqui, as autoridades tm insistido para que as organizadas denunciem o integrante que cometa algum ato de vandalismo, sob o risco de a torcida toda ser responsabilizada. Essa estratgia deu resultado no confronto entre Santos e So Paulo, no comeo deste ms, quando um rojo foi lanado de um dos nibus de torcedores do time da Baixada Santista e estourou ao lado de um dos policiais que faziam a escolta do veculo. De imediato, o nibus foi parado para que, naquele momento, o autor se apresentasse. Do contrrio a torcida inteira seria levada para a delegacia e correria o risco de sofrer uma eventual suspenso.  preciso tolerncia zero com as torcidas organizadas nos estdios para que o futebol volte a ser um evento de diverso e no uma ameaa aos espectadores.


3. A VOLTA DE DOM PEDRO I
A exumao dos corpos do imperador e de suas duas mulheres elucida dvidas sobre a monarquia, reconta detalhes da histria e traz o passado do Pas para mais perto dos brasileiros 
Joo Loes

No so muitas as oportunidades de testemunhar a histria ser reescrita. s vezes, na academia, ela at ganha novas leituras  luz da poca e das teorias de quem se prope a reinterpret-la. Mas fatos novos surgirem  coisa rara. Isso torna ainda mais importantes as descobertas que comeam a ser feitas a partir da exumao indita dos corpos de dom Pedro I, imperador do Brasil, e suas duas mulheres, dona Leopoldina e dona Amlia. Fruto do extenso trabalho que envolveu 11 instituies dos trs mbitos de governo e mobilizou uma equipe liderada pela arqueloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, os resultados iniciais, divulgados pelo jornal O Estado de S. Paulo, tm o fascnio de trazer o passado para os dias de hoje. O interesse despertado pela pesquisa tambm  sinal da onda de valorizao da histria que se nota no mundo todo, com um pblico global que parece vido por saber um pouco mais sobre o que j foi um dia. Os estudos que a intrincada exumao incentiva devem ainda dar incio a um processo de reviso e redescobrimento da histria nacional. Em breve, teorizam historiadores ouvidos por ISTO, poderemos at ver algumas modificaes nos livros didticos brasileiros a partir do que dizem os restos mortais da famlia imperial. Entre os personagens examinados, dom Pedro I e a imperatriz Leopoldina renderam as revelaes mais saborosas da pesquisa. Ele, em especial, por sua importncia histrica e por ser o eixo central dos trs exumados, foi quem mereceu mais ateno.

TRABALHO MINUCIOSO - Estudos dos restos mortais do imperador e de suas esposas permitem rever fatos histricos. Abaixo, dona Amlia mumificada

Dom Pedro I, feito imperador do Brasil em 12 de outubro de 1822, morreu e foi enterrado em Portugal em 1834. Ele havia abdicado do trono brasileiro trs anos antes e regressado para a Europa. Seus restos mortais foram trasladados para o Pas em 1972, na comemorao dos 150 anos de Independncia, sendo abrigados na cripta do Monumento  Independncia, em So Paulo. A abertura do caixo, em fevereiro do ano passado, foi trabalhosa e demorada (leia mais s pgs. 62 e 63). Um levantamento preliminar do material j permitiu a reviso de algumas verdades estabelecidas sobre o imperador, alm de novas interpretaes de fatos conhecidos.
 
Por mais de um sculo, a imagem propagada de dom Pedro I era a de um homem esguio, forte e alto. Assim ele foi retratado em telas e, posteriormente, no cinema e na tev. Por isso, o patriarca da independncia que habita o imaginrio brasileiro  o do imperador montado no cavalo branco, grande e imponente como o pintou Pedro Amrico num dos principais quadros do Museu da Independncia. Ou o dom Pedro I gal, interpretado, em 1972, por Tarcsio Meira no filme Independncia ou Morte. A verdade, porm,  que nem porte de gal ele tinha. Segundo as concluses iniciais da pesquisa, ele media entre 1,66 m e 1,73 m. Portanto, era baixinho para os padres atuais, mas de boa estatura para a poca. A partir da estrutura ssea pode-se inferir que era atltico. Bate com os relatos que temos de que ele era um sujeito hiperativo, sempre envolvido com algum tipo de atividade fsica, afirma Mary del Priore, historiadora e autora de A Carne e o Sangue, sobre a famlia imperial.

A exumao tambm revelou que quatro costelas do lado esquerdo estavam quebradas. Elas so resultado de acidentes em vida porque havia marcas de cicatrizao, processo que cessa aps a morte.  um achado que confirma a documentao existente sobre os acidentes sofridos por dom Pedro I  um em 1823 e outro em 1829 , mas que tambm expande a discusso sobre as aptides e o estilo dele para exercer o poder. De informaes como essa, que confirmam leses graves decorrentes dos riscos que o imperador assumiu, podemos inferir que ele no era um homem talhado para a vida em gabinete, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de So Paulo (USP).
 
De fato, dom Pedro I era mais talhado para a ao do que para reflexes. Ao regressar para Portugal, por exemplo, depois da abdicao do trono no Brasil, fez treinamento na Frana para melhorar a condio fsica como preparao para a guerra que travaria com seu irmo, dom Miguel, pelo trono portugus. Negociar uma sada diplomtica no era sequer uma possibilidade. Todo governante constri para si a imagem que deseja ter, e dom Pedro I sempre quis ter fama de cavaleiro destemido e apaixonado, diz o historiador Maurcio Vicente Ferreira Jr., diretor do Museu Imperial em Petrpolis. De certa forma ele conseguiu, tanto para o bem quanto para o mal.

FAMLIA - A historiadora e arqueloga Valdirene Ambiel com o crnio de dom Pedro I. No alto, a segunda mulher, dona Amlia, e acima a primeira, dona Leopoldina
 
Dona Leopoldina, sua primeira mulher, sentiu na pele o lado passional de dom Pedro I. Dado a variaes de humor, toda energia que ele to facilmente depositava nas causas em que acreditava podia rapidamente se tornar agressividade. A imperatriz narrava em suas cartas a violncia psicolgica a que era submetida. Queixava-se do marido  irm mais velha, Maria Luisa de ustria, e a amigas como Maria Graham, sua educadora na infncia. A correspondncia mais reveladora, de 8 de dezembro de 1826, endereada a Maria Luisa, fala de sofrimento e morte iminente  a imperatriz morreria trs dias depois de ditar esta carta. H quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado de maior escravido e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro, desfia. Mais adiante, faz meno a um horroroso atentado que ser a causa de minha morte.

Isso ajudou a propagar a histria de que dom Pedro I, em um acesso de raiva, teria dado um pontap na imperatriz grvida, jogando-a escada abaixo no palcio na Quinta da Boa Vista, em So Cristovo, no Rio de Janeiro. O ataque teria quebrado o fmur da imperatriz, causado seu ltimo aborto e deflagrado a infeco generalizada que a matou em 1826. A origem da briga era a relao de dom Pedro I com a amante Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos, a quem ele havia promovido a dama de companhia da imperatriz. A gota dgua para Leopoldina foi o fato de dom Pedro resolver assumir publicamente Isabel Maria, a filha que teve com Domitila, concedendo o ttulo de duquesa de Gois  menina de dois anos. Leopoldina o censurou numa carta: Escolhes entre a esposa e a amante! A reao brutal do imperador foi testemunhada pelo Baro de Mareschal, um agente do governo da ustria, alm de outras duas pessoas. Segundo Mareschal, ele gritou com a mulher que lhe tiraria os cavalos para passeio e outros improprios. O austraco tambm teria sido um dos responsveis por espalhar na corte que dom Pedro espancara a esposa.
 
Uma das revelaes importantes dos restos exumados de dona Leopoldina foi a de que no havia sinais de fratura em seu fmur. Essa informao, em tese, desmentiria o episdio da Quinta da Boa Vista.  uma histria de origem pouco conhecida, mas que foi repetida infinitamente e acabou sendo tratada como verdade, diz Isabel Lustosa, historiadora da Fundao Casa de Rui Barbosa e autora do livro D. Pedro I: Um Heri Sem Nenhum Carter. Na Europa, tias e amigas de dona Leopoldina na ustria espalharam a verso sobre a morte da imperatriz pelas cortes do continente. No Brasil, ela ganhou as pginas de jornais de oposio, como o republicano O Repblico, que chegou a chamar dom Pedro I de monstro. Seria uma mancha imensa na histria da famlia imperial, se  que a histria  verdadeira. Mas os ossos intactos deram nimo aos descendentes da monarquia. Ele no era esse monstro, rebate dom Antnio Joo Maria de Orlans e Bragana, 62 anos. Est provado que no houve nenhuma agresso, refora dom Betrand Maria de Orlans e Bragana e Wittelsbach, 72 anos, que autorizou as exumaes, nas quais estiveram presentes um sacerdote. A pesquisadora responsvel pelo estudo, porm, diz no ser possvel fazer tal afirmao. O que d pra dizer  que ela no foi vtima de violncia com fora suficiente para quebrar um fmur, esclarece Valdirene.

Os ossos da imperatriz, no entanto, desfazem a imagem de que ela era rechonchuda. Quando a jovem Leopoldina chegou ao Brasil, aos 19 anos, era pequena, muito branca e com cabelos de um loiro fosco, segundo historiadores. Depois de algum tempo no Rio de Janeiro teria engordado, passando a ser descrita como baixa e corpulenta. Uma amiga que a visitou no Pao Imperial, a Baronesa de Monet, chegou a ser ferina no relato da silhueta da imperatriz: Parece talhada numa pea s. Mas os exames da ossada sugerem, segundo Valdirene, que ela era uma mulher magra. Talvez o fato de dona Leopoldina ter tido nove gestaes durante os nove anos em que viveu no Brasil tenha contribudo para essa imagem de gordinha.
 
No fim da vida, a depresso tomou conta da imperatriz que, alm de tudo, estava sem dinheiro. Ela contraiu dvidas com comerciantes para dar conta de suas despesas enquanto dom Pedro I, sovina, regulava at a despensa da casa e a privava da mesada que seus familiares austracos mandavam. Isso poderia explicar porque a imperatriz foi enterrada praticamente sem joias, apenas com um brinco simples e sem luxo, supostamente ornado por uma gota de resina, como mostrou a exumao. No d para dizer qual  o material porque os exames ainda no foram concludos, ressalva a arqueloga Valdirene. E ainda que seja resina, h resinas carssimas, como o mbar. Mesmo assim, surpreende a ausncia de outras joias no caixo. Onde esto as tiaras, os colares e as pulseiras que condizem com o status de imperatriz que ela tinha?, questiona Maurcio Vicente Ferreira Jr., do Museu Imperial de Petrpolis. dona Leopoldina foi enterrada com o vestido que usou para a coroao do marido,  esperado que ele tenha sido desenhado com um conjuto de joias prprio, que, surpreendetemente, no est presente.

HOMENAGEM - Os corpos das trs figuras histricas esto abrigados na cripta imperial do Monumento  Independncia, no parque da Independncia, em So Paulo
 
As vestimentas do enterro de dom Pedro I tambm foram motivo de surpresa para os pesquisadores. No havia qualquer comenda brasileira entre as seis encontradas nas roupas militares do imperador.  preciso entender o contexto da morte dele, diz o professor Paulo Jorge Fernandes, da Faculdade de Cincias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. dom Pedro I morreu em Portugal como dom Pedro IV depois de se sair vitorioso de uma dura batalha contra o irmo tirano, dom Miguel. O foco estava na ptria-me.  natural que ele ganhasse estas insgnias, no h desrespeito com a histria brasileira, afirma.
 
Para entender a divergncia, convm separar a vida de dom Pedro I em trs estgios distintos. O primeiro, em Portugal, como primognito de dom Joo VI, o segundo, no Brasil, como imperador, e o terceiro, de volta a Portugal, como o rei soldado dom Pedro IV. Quando ele voltou a Portugal, sua vida havia mudado de tal maneira que ele j estava, inclusive, casado com sua segunda mulher, dona Amlia de Leuchtenberg, que tambm foi exumada da cripta do Monumento  Independncia. Do caixo dela veio uma das maiores surpresas de toda operao: seu estado de conservao. Ela tinha pele, olhos, clios e cabelo intactos. Em 1982, quando houve o traslado do seu corpo para o Brasil, foi constatado que ela estava preservada, mas sua localizao na cripta era a pior, por isso, a expetativa era de grande deteriorao.

Curiosamente, dona Amlia queria um velrio simples. Em testamento, ela pediu, textualmente, para no ser autopsiada ou embalsamada, afirma a pesquisadora Cludia Thom Witte, especialista na histria da segunda mulher do imperador. Porm, o texto foi lido dois dias depois do enterro, na Ilha da Madeira, onde dona Amlia morava na poca. Quem preparou seu corpo foi o mdico Francisco Antnio Barral, tambm responsvel por embalsamar a filha dela, Maria Amlia do Brasil, que morreu de tuberculose aos 21 anos em 1853. Na poca, era comum europeus com a doena rumarem para ilha atrs de ar puro e repouso. Para o corpo da jovem, a imperatriz havia pedido o melhor mtodo de embalsamamento da poca, pois ela tinha inteno de vel-la por muito tempo  a cerimnia fnebre durou impressionantes dois meses. E quando dona Amlia morre,u Francisco Barral decidiu usar na imperatriz a mesma tcnica aplicada na infanta. O acaso ainda colocou dona Amlia no caixo e sarcfago mais bem fechados dos trs que esto na cripta, o que criou uma situao ideal de preservao. Quando foi aberto, em 10 de agosto de 2012, o cheiro de cnfora dominou o ambiente, pois a substncia era um dos principais ingredientes do embalsamamento.
 
Dona Amlia teve uma vida muito mais calma do que dona Leopoldina. Dom Pedro I, mais velho e consciente da dificuldade que seus assessores tiveram para lhe encontrar uma segunda mulher  sua fama de violento ainda dominava as cortes europeias e ele ouviu oito recusas, da Baviera ao Piemonte, at ser aceito , foi amoroso e atencioso com a nova imperatriz. Para a pesquisadora Cludia, isso explica o fato de dona Amlia ter guardado luto por 39 anos, at sua morte. Ela foi enterrada de preto.
 
Muitas outras interpretaes ainda sero feitas a partir da pesquisa da arqueloga Valdirene, apresentada como um projeto de mestrado no departamento de histria da Universidade de So Paulo na semana passada. Novos dados tambm surgiro a partir da anlise da montanha de informao acumulada pelas fotos e exames mdicos desses trs protagonistas da nossa histria. A anlise levar anos e ajudar a compor um perfil mais fiel da famlia imperial. H muito trabalho por fazer e Valdirene Ambiel, 41 anos, pretende se encarregar de pelo menos parte dele em um doutorado. So poucas as oportunidades que temos de mostrar ao grande pblico, de forma to clara e direta, que a histria no  uma verdade nica e inquestionvel, descansando em um livro, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino. Estamos diante de uma delas.


4. DA CRIPTA PARA O TOMGRAFO
Como foi feito o trabalho da equipe que exumou e examinou os restos mortais de dom Pedro I e suas duas mulheres
 Joo Loes

 MINCIA - Valdirene Ambiel, a arqueloga responsvel pelo estudo, acompanha a tomografia de dona Leopoldina 

Entre os meses de fevereiro e setembro de 2012, um estranho movimento tomou o entorno do Monumento  Independncia, que fica no bairro do Ipiranga, zona sul da capital paulista. Quem resolvia questionar os seguranas que isolavam o acesso  cripta  que fica embaixo do monumento e guarda os restos mortais de dom Pedro I, imperador do Brasil, dona Leopoldina, sua primeira mulher, e dona Amlia, sua segunda esposa  recebia uma resposta protocolar: estamos em reforma. No era bem isso. Naqueles meses, os corpos dos trs membros da famlia imperial foram exumados e cuidadosamente estudados.
 
Em trs ocasies, sempre durante a madrugada, eles foram levados, um por vez e dentro de suas respectivas urnas funerrias, do Ipiranga ao Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (HC/FM-USP), a 23 quilmetros de distncia, para passar por exames. Os trs foram submetidos a uma tomografia computadorizada e dom Pedro tambm a uma ressonncia magntica. Sempre torci para que um trabalho como esse fosse feito com a famlia imperial, diz Valdirene do Carmo Ambiel, 41 anos, historiadora e arqueloga responsvel pelo projeto de exumao. Nunca imaginei que eu faria esse trabalho, diz ela.

Fascinada desde a infncia com o Egito, Valdirene acabou escolhendo a histria e a arqueologia como profisso. Como no dava para fazer egiptologia no Brasil e eu no tinha condies de bancar um curso no Exterior, acabei tentando fazer algo parecido por aqui, conta. Pouco mais de um ano separou o primeiro contato dela com os representantes da famlia imperial dom Luiz de Orleans e Bragana e Wittelsbach e dom Bertrand de Orleans e Bragana e Wittelsbach, e a autorizao para comear o projeto. De incio ressabiados, eles logo se empolgaram com o trabalho e se mostraram to curiosos como Valdirene quanto ao estado dos restos imperiais. Mas s a autorizao da famlia no bastava. Valdirene teve de conseguir autorizaes de pelo menos 11 instituies dos trs mbitos de governo envolvidos para finalmente comear a trabalhar. 

A abertura tanto da tumba de dona Leopoldina quanto de dom Pedro I e de dona Amlia foi tranquila. Nessas ocasies estiveram tambm presentes um representante da famlia imperial brasileira e um sacerdote, que fazia uma orao em latim. Uma vez expostos, os corpos eram cuidadosamente estudados por perodos que variavam entre um ms e meio e dois meses. Os dias na cripta envolviam at seis profissionais, comeavam s 9 horas, no tinham hora para acabar e eram tomados pelo trabalho de limpeza, manuteno e registro das informaes em foto e vdeo. Milhares de imagens e 870 horas de filmagens foram acumuladas. A grande surpresa ficou por conta do estado de preservao de dona Amlia, que estava mumificada.
 
A sorte de encontrar a segunda imperatriz preservada lembra o objetivo original do projeto: garantir a preservao do patrimnio. A esperana  de que agora o cuidado na cripta aumente, diz Valdirene. Quem sabe novas exumaes, motivadas pela pesquisa, tambm aconteam. Mas no pretendo me envolver com outras exumaes to cedo, diz a arqueloga. Agora quero me dedicar ao estudo dos dados que coletei para produzir meu doutorado.

